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Sinais de Alarme da Dor de Cabeça

Atualizado: 17 de out. de 2021


Você saberia reconhecer sinais e sintomas de doenças graves em familiares ou amigos com dor de cabeça?


A queixa de dor de cabeça não associada ao trauma é comum no pronto-socorro e representa de 2 a 5% do total de atendimentos. A grande maioria dos casos está associada a condições benignas, como a enxaqueca ou a dor tensional, até mesmo por isso, diferenciar tais casos daquela minoria causada por doenças graves, por vezes com risco à vida, é um grande desafio.


Nesse sentido, a história clínica e o exame físico detalhado continuam sendo a ferramenta mais importante para a avaliação de um paciente com dor de cabeça no pronto-socorro, com eles é possível identificar a presença de sinais e sintomas de doenças graves dentro do grande número de pacientes com dor de cabeça, são os chamados sinais de alarme da dor de cabeça.


Conhecer tal sintomatologia é importante não apenas para os médicos, mas na verdade para todos, uma vez que pode levar à rápida identificação de doenças graves e acelerar a procura pelos serviços de saúde. Em se tratando de doenças neurológicas graves a rápida procura por auxílio médico pode impactar diretamente no desfecho daquele quadro, no risco de incapacidades permanentes e até mesmo na mortalidade.


Nesse ponto fica a pergunta: você saberia reconhecer sinais de alarme para doenças graves em familiares ou amigos com dor de cabeça?


Dor de cabeça de início súbito

Toda dor de cabeça que se instale de forma rápida e atinja seu máximo de intensidade dentro de poucos segundos ou minutos necessita deve ser prontamente investigada! Esse padrão de instalação da dor de cabeça é conhecido como “cefaleia em trovoada” e pode estar relacionado a doenças graves como o rompimento de um aneurisma cerebral, trombose cerebral, dissecções arteriais, sangramentos da glândula hipófise ou constrição de artérias cerebrais.


Ausência de dores similares no passado

Classicamente as dores de cabeça benignas, primárias, como a enxaqueca ou a dor tensional tem um padrão recorrente de dor, muitas vezes estereotipado, ou seja, a pessoa sabe com facilidade relatar que aquela dor, com aquelas características, já ocorreu várias vezes antes. Nesse sentido, o surgimento de uma dor que seja diferente do habitual, descrita como a “primeira” ou “pior” dor de cabeça da vida deve levantar a preocupação sobre outras doenças.


Alteração do estado mental ou crises convulsivas

Qualquer alteração do estado mental, personalidade ou nível de consciência (sonolência excessiva, falta de responsividade ou desmaios) sugere alguma anormalidade grave, bem como a ocorrência de crise convulsiva na vigência de dor de cabeça. Tais achados podem sugerir a presença de uma patologia intracraniana, por exemplo, uma hemorragia subaracnóide. Dor de cabeça e crise convulsiva na gestação pode indicar a presença de pré-eclâmpsia e no puerpério a presença de PRES (Síndrome da Encefalopatia Posterior Reversível).


Dor de cabeça ao esforço físico

O surgimento de dor de cabeça desencadeada pelo esforço físico levanta a preocupação sobre patologias que cursam com o aumento da pressão intracraniana, assim, as dores de que se iniciam ao esforço (exercícios, atividade sexual, tosse, evacuação etc.) devem ser sempre investigadas. A dissecção carotídea, a Síndrome da Vasoconstrição Cerebral Reversível (SVCR), a trombose venosa cerebral e as hemorragias intracranianas são exemplos de condições que podem se apresentar dessa forma. Vale ressaltar que dores de cabeça primárias, como a enxaqueca, habitualmente são agravadas pelo esforço físico, mas não são desencadeadas pelo mesmo.


Idade acima de 50 anos

As dores de cabeça que se iniciam após os 50 anos devem sempre ser investigadas! Pessoas com dores novas ou progressivas nessa faixa etária tem um risco significativamente maior de doenças graves, como a presença de lesões expansivas intracranianas (tumores p.ex.) ou arterite de células gigantes. Além do mais, as dores de cabeça benignas, primárias, habitualmente começam seu curso numa idade mais jovem, por essas razões as dores que se iniciam após os 50 anos merecem uma atenção especial.


Imunossupressão

A imunossupressão (baixa de funcionamento do sistema imunológico) pode ocorrer em diversos contextos clínicos, como em pessoas em tratamento para o câncer, para doenças reumatológicas ou na infecção pelo HIV. De qualquer forma, o início de dor de cabeça nessa circunstância levanta preocupação quanto a doenças intracranianas, como a neurotoxoplasmose, o linfoma do sistema nervoso central, abscessos cerebrais ou meningite (por vezes fúngica). Investigação agressiva deve ser realizada nesse contexto, especialmente se houver outros sinais de alarme como o início súbito ou a alteração do estado de consciência.


Presença de alterações visuais

A presença de alterações visuais como a turvação da visão, a perda de parte do campo visual, a visão dobrada (diplopia) ou a dor ocular no contexto de uma dor de cabeça devem ser investigadas! Doenças que cursam com o aumento da pressão intracraniana, compressão de nervos cranianos, arterite de células gigantes ou até mesmo complicações associadas ao glaucoma podem ser a causa da dor. Vale ressaltar que na enxaqueca também pode ocorrer alteração visual (aura visual), no entanto tal sintoma dura poucos minutos (no máximo 1 hora), tem recuperação completa e está habitualmente associado a um episódio típico de enxaqueca.


Gravidez e puerpério

As dores de cabeça primárias (enxaqueca, dor tensional etc.) continuam sendo as dores de cabeça mais comuns na gestação, no entanto outros diagnósticos associados a gestação devem ser considerados, sendo a pré-eclâmpsia o mais importante deles. Nessa condição a dor de cabeça é característica de casos mais avançados e tipicamente cursa com uma dor de cabeça nova que que não responde ao uso de analgésicos. Perda visual, AVC e crises convulsivas também podem ocorrer em casos graves. Ressaltando que a dor de cabeça isoladamente não define o diagnóstico de pré-eclâmpsia, sendo necessária a comprovação de hipertensão arterial nova, após as 20 semanas de gestação.


Uso de medicações

O uso de algumas medicações pode aumentar o risco da ocorrência de doenças neurológicas graves, sendo parte fundamental da investigação de quadros de dor de cabeça! Classicamente o uso crônico de anti-inflamatórios ou anticoagulantes aumenta o risco de uma hemorragia cerebral, enquanto o uso de corticosteroides ou anticoncepcionais pode estar associado a eventos trombóticos, como a trombose venosa cerebral. Até mesmo o uso excessivo de analgésicos comuns pode estar associado a exacerbação de quadros de dor de cabeça, a chamada cefaleia por abuso de analgésicos.


Outras alterações neurológicas

Apesar de outras alterações como a febre, a queda do estado geral e a sonolência excessiva sugerirem a ocorrência de alguma doença grave, a presença de alterações neurológicas ao exame físico continua sendo o melhor preditor clínico para o diagnóstico de doenças intracranianas. Tais alterações podem ser discretas e passar desapercebidas, como uma assimetria pupilar, a perda de parte do campo visual, uma discreta falta de coordenação ou de força. Por essa razão é tão importante procurar precocemente os serviços de saúde.


Em resumo, as dores de cabeça são extremamente comuns na população, sendo tarefa quase impossível encontrar pessoas que nunca tiveram um episódio de dor de cabeça na vida! Nesse sentido, ficar a atento a sinais de doenças graves pode ser extremamente útil para oferecer auxílio a quem mais precisa.



Dr. Rodrigo Vargas

Médico Neurologista

Membro Titular - Academia Brasileira de Neurologia

Professor Assistente II - FAMED/ UniRV


@rodrigovargasneuro

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